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50 anos de arte e resistência no subúrbio carioca

jun
2026

Por Juliana Portella

Flávio Lima celebra a cida e a memória suburbana no lançamento de ‘Rosa dos Ventres
Há uma força mítica nos quintais do subúrbio carioca que a geografia oficial teima em não conseguir cartografar. Na noite do último sábado, 30 de maio, a Rua Capitão Cruz, em Cordovil, transformou-se no epicentro de uma dessas cartografias afetivas. A CASARTI (Casa do Artista Independente), Ponto de Cultura fundado pelo geógrafo, professor e compositor Flávio Lima, abriu suas portas para uma celebração que extrapolava o lançamento de um livro. Era, fundamentalmente, a celebração de um milagre e de uma insistência.
O espaço lotou. Entre abraços apertados, sorrisos marejados e o reencontro de gerações que acompanham a trajetória de Flávio há cinco décadas, o ar carregava uma densidade bonita, típica das grandes vitórias coletivas. No palco e nos corredores, o público se espremia para saudar o homem que fez da poética periférica a sua grande lança.
A abertura da noite coube à dirigente da CASARTI e parceira de cida do Flávio, a produtora cultural Massari Simões, que, falando em nome da organização e dando as boas-vindas aos presentes, traduziu em palavras o sentimento que pairava no ambiente. Para ela, a noite carregava uma dupla e monumental vitória para a história de Flávio, que caminha firme em direção aos seus 70 anos de vida.
“Hoje estou celebrando duas coisas, e duas coisas talvez das mais importantes na minha vida”, partilhou Massari, visivelmente emocionada. “Para quem não sabe, o Flávio teve um câncer de laringe, teve que fazer uma laringectomia, e aí eu estou celebrando pelo seguinte: ele já está com a prótese fonatória implantada, ele já está falando algumas palavras. Ainda não está falando com a gente [perfeitamente] porque tem todo o processo com a fonoaudióloga, então, essa é talvez a maior celebração da minha vida.”

A segunda grande vitória da noite repousava nas mesas de autógrafos: o livro Rosa dos Ventres. O título, homônimo a uma canção autoral de Flávio que já ultrapassa a marca dos vinte anos, nasceu de um sopro de urgência. Quando o diagnóstico do câncer chegou, foi de Massari Simões a sugestão para que o parceiro compilasse tudo o que vinha escrevendo ao longo da vida — as letras, os poemas, os contos e as crônicas. Flávio aceitou o desafio.
O resultado, publicado pela Mórula Editorial — casa que se dedica a compreender as dinâmicas e as questões urbanas cariocas —, é um compilado denso de contos, crônicas e poemas. Como o próprio Flávio costuma definir, e Massari fez questão de ecoar para a plateia atenta, trata-se de “um livro da pesada”.
A viabilização do volume foi fruto de uma parceria entre a CASARTI e o Instituto 215, que inscreveu o trabalho de Flávio no edital “Literatura do Rio ao RJ”, garantindo o patrocínio da Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa (SECEC RJ).
Teresa Guilhon, coordenadora do projeto editorial e diretora executiva do Instituto 215, sublinhou a relevância das cinco décadas de atuação do autor na Zona Norte.
“São 50 anos trabalhando nessa direção, na direção de fazer as outras pessoas felizes com a sua arte que o Flávio traz pra gente”, afirmou Teresa, destacando o papel da editora e a necessidade de fomento público. “O artista precisa desse apoio, o artista precisa. Então, divirtam-se!”
A lona da CASARTI seguiu a recomendação. O lançamento estendeu-se em formato de celebração musical comandada por parceiros históricos do compositor. Subiram ao palco a cantora Rose Maia, Reizilan Cartola Neto e Mequetrefe, além de participações especiais de diversos convidados que transformaram a noite de autógrafos em uma autêntica roda de resistência cultural suburbana.
Acompanhando a movimentação, Flávio Lima endossou o coro dos que enxergam na palavra escrita um território indomável, capaz de superar inclusive as barreiras impostas pela laringectomia. Como define em sua própria obra, Rosa dos Ventres cumpre o papel de ser um “singelo porém possante tambor de ressonância” da periferia. No último sábado, em Cordovil, o eco desse tambor provou que a memória cultural do subúrbio segue com voz própria e revigorada.
O livro Rosa dos Ventres está disponível para venda presencial na sede da CASARTI, em Cordovil, e pode ser adquirido virtualmente através do site oficial da Mórula Editorial. O título também já começa a circular nas principais livrarias e espaços de resistência literária pelo Rio de Janeiro.

https://morula.com.br/loja/

 

Juliana Portella é Mestra em Educação, Cultura e Comunicação, Jornalista e Especialista em Branding

Fotos: Ilana Marques e Juliana Portella