Estamos vivas (nós, mulheres negras) e por isso marchamos
por Maria Clara Salvador
É 25 de novembro de 2025 e seguimos em Marcha! Mais uma vez, convocamos a sociedade brasileira a reafirmar que o Bem Viver, tal como elaborado pelas mulheres negras, é o paradigma capaz de recriar a própria concepção de humanidade. A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver reafirma uma proposta civilizatória justa e possível, indispensável para que o mundo avance rumo a um futuro digno: o reconhecimento e a reparação coletiva pelos danos históricos produzidos pelo projeto colonial, pela escravidão e pelo patriarcado.
Por isso, incorporamos em 2025 a reivindicação central da Reparação. É fundamental lembrar que as mulheres negras não demandam apenas compensações financeiras. Há a necessidade inadiável de uma reparação integral, que garanta dignidade, justiça, memória, políticas estruturantes e o direito de viver plenamente, enfrentando o racismo em todas as suas dimensões sociais e psicológicas. O movimento de mulheres negras afirma a vida da população negra e denuncia a estruturação histórica do racismo como mecanismo que define quem é reconhecido como humano e quem é constantemente desumanizado.
Foi nesse sentido que o sistema escravocrata, nos séculos XVIII e XIX, reduziu a população afrodescendente à condição de objeto, passível de compra e venda. A escravização instaurou um sentimento que persistiu ao longo do tempo, de desvalorização do conhecimento produzido por pessoas negras. Esse processo alimenta e legitima até hoje a produção de saberes atravessados por preceitos racistas, que moldam a base do pensamento hegemônico. As marcas deixadas por esse projeto são profundas e atravessam todas as sociedades de matriz colonial, especialmente a brasileira.
A segregação racial, enraizada nesses contextos, manifesta-se nas mais diversas estruturas sociais. Como afirma a filósofa, escritora e fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra – Sueli Carneiro, a raça constitui um dos elementos estruturantes das sociedades multirraciais de origem colonial. A noção de “apartheid social” e a centralidade da categoria de classe, defendidas por correntes oriundas do materialismo histórico-dialético e por parte da tradição de esquerda, não dão conta e muitas vezes mascaram a contradição racial presente nessas sociedades. No caso brasileiro, por exemplo, a variável racial estrutura e condiciona as próprias relações de classe, tornando impossível qualquer análise social que não coloque a questão racial no centro do debate.
No entanto, apesar de toda a opressão racial e da histórica desumanização, “Estamos em Marcha!”. Essa frase, na minha compreensão, afirma que o projeto de embranquecimento do Brasil, o projeto de apagamento das mulheres negras e afro-indígenas, esvaziou-se de várias formas, pois, seguimos vivas, caminhando, produzindo, nos insurgindo.

Foto: Claudia Ferreira/ Acervo Memória e Movimentos Sociais
Há um processo que antecede a minha própria existência e que também me atravessa desde a infância: foi em novembro de 2011 que Nilma Bentes, liderança histórica do Movimento Negro Brasileiro, ecoou em Salvador (BA) a proposta que transformaria os rumos da luta por igualdade racial e de gênero no país e que se tornaria uma referência intelectual para gerações de mulheres negras: a ideia de realizar uma marcha nacional de mulheres negras. Desde então, “Estamos em Marcha!” passou a carregar um significado profundo, coletivo e até mesmo espiritual para a luta antirracista no Brasil
A ideia se espalhou pelo país ao longo dos quatro anos seguintes, mobilizando territórios, coletivos, comunidades e organizações. Esse processo culminou na Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, realizada em 18 de novembro de 2015, em Brasília. Desde então, “Estamos em Marcha!” passou a significar a potência de mobilização e formação política das mulheres negras. Essa frase encoraja as mulheres afrodescendentes a continuarem sustentando suas comunidades e contribuindo para redefinir o futuro da sociedade brasileira.
Marchar, para nós, é declarar que as mulheres negras oriundas de quilombos, favelas, periferias, espaços rurais e urbanos têm um projeto político de nação capaz de confrontar a lógica do sistema, estruturado a partir do poder masculino branco e de propor novos caminhos de convivência, justiça e existência para todas as pessoas.
Maria Clara Salvador é mulher negra, assessora de projetos do Instituto 215, ativista ambiental e moradora da Baixada Fluminense. É Analista em Educação Climática no Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) e cofundadora da iniciativa Clima é de Mudança.
Referencias:
BENTES, Nilma. A insurgência das mulheres negras no Brasil. Revista da ABPN, v. 12, n. 30, 2020.
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser: o dispositivo de racialidade. 1985. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
Foto da capa: Claudia Ferreira/ Acervo Memória e Movimentos Sociais
* Nota das editoras: Para saber mais sobre a história da Marcha das Mulheres Negras de 2015 acesse o e-book da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras aqui