O Rio de Janeiro na Década do Oceano
por Simone Siag Oigman Pszczol.
Proclamada pela ONU em 2017, a Década do Oceano (2021–2030) foi criada com o objetivo de mobilizar governos, cientistas, sociedade civil e setor privado para gerar conhecimento científico e implementar ações que promovam a conservação dos oceanos, enfrentem os efeitos das mudanças climáticas e assim garantam o uso sustentável dos recursos.
O Brasil tem alcançado um importante destaque nesse cenário internacional, a partir da adoção de uma série de iniciativas que promovem o uso sustentável dos recursos marinhos. E os melhores exemplos nos chegam através da educação: destacamos, por exemplo, a inclusão do Currículo Azul* e a implementação do programa Escola Azul, que conta atualmente com 520 escolas cadastradas em 22 estados, e já engajou mais de 100 mil alunos em atividades voltadas à conscientização sobre o oceano além da criação dos fóruns regionais, perfeitos para a promoção de debates sobre educação ambiental e cultura oceânica.
Apesar de ter nascido com um propósito mais abrangente, criando e implementando ações que promovam uma vida mais ambientalmente inclusiva, o BrBio vem realizando, desde 2013, centenas de ações de educação e sensibilização para a sustentabilidade nos oceanos, por meio dos projetos e do Programa Pegada Ambiental, que leva ciência, biodiversidade, bioinvasão marinha e cultura oceânica a dezenas de escolas públicas. Com base nessa experiência, a instituição consolidou sua atuação educacional em 2023, lançando o Projeto “O Mar é Nosso” com o objetivo de formar e engajar jovens, professores e suas famílias na cultura oceânica.

Campanha de sensibilização SOS Mar de Búzios, com a participação de alunos de escolas públicas da cidade /Arquivo BrBio
Por isso, nos impactou muito positivamente o anúncio, feito no final de junho deste ano, de que em 2027 a cidade do Rio de Janeiro será palco da terceira edição da Conferência da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, iniciativa promovida pela UNESCO, por meio da Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e a Prefeitura do Rio de Janeiro. A realização da conferência é uma ótima notícia para a população brasileira.
A economia do mar, segundo a OCDE, já representa quase 10% do PIB do Rio de Janeiro, gerando cerca de R$ 242 bilhões anuais. Ainda segundo a organização, a estimativa é que o turismo costeiro e marítimo deva dobrar de tamanho, alcançando US$ 800 bilhões até 2030. Foi pensando na união poderosa entre o turismo, a educação e a formação de cidadãos e cidadãs cada vez mais conscientes que lançamos o Passaporte Ambiental, uma parceria com a Secretaria de Meio Ambiente e Clima, do Rio de Janeiro, e o check-out ambiental com o Grupo Arpoador. O Passaporte, que apresenta unidades de conservação costeiras e marinhas do Rio de Janeiro, é uma iniciativa potente que estimula cariocas e turistas a visitarem áreas importantes da cidade, destaca espécies da fauna e da flora e estimula uma modalidade de turismo extremamente benéfica para as cidades. O check-out permite que os turistas contribuam para a realização dos projetos e ações do BrBio.

Pesquisadora do projeto Ecorais, sobre a saúde dos ambientes coralíneos, em ação/ Arquivo BrBio
No ano passado, iniciamos o processo de assessoramento de escolas e apoiamos duas instituições que se tornaram Escolas Azuis no Rio de Janeiro, reforçando nosso compromisso com a educação oceânica de excelência, especialmente voltada para o território da nossa cidade. Desde a criação da organização, buscamos parcerias com as principais universidades brasileiras, realizando conexões verdadeiras e longevas e atuando, ao lado de outros representantes do terceiro setor, artistas, cientistas e comunicadores em um movimento permanente de estímulo à adoção de políticas públicas, à economia azul**, que vem movimentando entre 3 e 6 trilhões de dólares por ano, e à valorização dos oceanos como elementos fundamentais em tempos de mudanças climáticas.
A Conferência da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável tem enorme potencial para gerar avanços significativos em várias frentes, trazendo maior fortalecimento da ciência oceânica no Brasil, participação de atores locais, visibilidade e engajamento público, além de permitir o planejamento estratégico e a ampliação do debate sobre a importância dos oceanos para o clima. O BrBio, assim como diversas iniciativas brasileiras, está preparado para contribuir com projetos de alta qualidade e relevância para consolidar a posição do Brasil como um dos expoentes em temas como cultura oceânica e economia azul.
* O Currículo Azul é uma iniciativa que integra a cultura oceânica ao currículo escolar, visando conscientizar estudantes sobre a importância do oceano para a vida no planeta e para a sustentabilidade. Recentemente, o Brasil foi o primeiro país a incluir oficialmente a cultura oceânica no currículo escolar.
** O conceito Economia Azul é relacionado ao uso sustentável dos recursos marinhos e costeiros para promover o crescimento econômico, a inclusão social e a conservação ambiental.
Foto da capa: Arquivo Brbio
Simone Siag Oigman Pszczol é bióloga marinha e PhD em ecologia. Fundadora e diretora executiva do Instituto Brasileiro de Biodiversidade BrBio, que atua na interface ciência-sociedade, promovendo pesquisa e educação para o uso sustentável de ambientes costeiros e marinhos.